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quarta-feira, 14 de março de 2012

Sou um aborígene australiano





SOU um aborígene australiano. Meu nome é Warwirra. No meu país, para diferençá-los dos imigrantes de primeira geração, a quem chamamos de “novos australianos”, usamos o termo “dinkum aussie” para os cidadãos nascidos no país. Sou um “dinkum aussie”.
Minha aparência é quase igual à de outros aborígenes, pois, embora sejamos muitas tribos, todavia temos uma só origem. A forma de nossa cabeça é mais alongada do que o usual, com testa que recua e a fronte saliente. Nosso cabelo é crespo, nosso nariz é achatado e nossa boca é grande, com dentes alvos. Nossa constituição é de tamanho médio, mas nossos membros são compridos e finos. Nossa cor de pele é marrom escura. As pessoas afirmam que os mais parecidos conosco são os membros da tribo selvagem dos vedas, do Ceilão, e as tribos das colinas da Índia.
Moro numa humilde casa de tijolos, mas meus pais não viviam desse jeito. Nesta, como em outras coisas, mudamos. Por conseguinte, sentimos freqüentes saudades do que chamamos de “sair andando por aí”. Quando surge o impulso, então deixamos nossas casas e ‘vamos para o mato’, para ali viver da terra, como fizeram nossos pais.
A razão deste impulso é que, na mente de todo aborígene, há o que chamamos de nosso “tempo de sonhos”, significando nossa história tribal e antigo modo de vida. Nostálgica saudade dos dias de nosso “tempo de sonhos” parece já ter nascido conosco. Antes de o Capitão Cook desembarcar na Baía Botany, gozamos um modo de vida tão diferente do atual — uma vida dura, mas livre. Por arranjo mútuo, minha tribo e outras detinham territórios que eram universalmente respeitados. Havia fronteiras, mas não eram manchadas por cercas e portões. Dentro de cada território tribal havia lugares “sagrados” que eram, para nós, como Paris é para os franceses ou Londres para os ingleses.
Nem todos os nossos “sonhos” são felizes. Neles há memórias de terrível selvageria. Depois de os europeus se estabelecerem no país, ignoraram nossos direitos territoriais e passaram a exterminar-nos. Gradualmente, fomos degradados à condição de escravos em nossa própria terra. Até mesmo tão recentemente quanto 1942, ao passo que, ironicamente, a Austrália estava em guerra com Hitler por causa da questão do genocídio, um parlamentar da Austrália Ocidental advogava: “Será um dia feliz para a Austrália Ocidental e para a Austrália em geral quando desaparecerem os nativos e os cangurus. . . . Ao tratar deste assunto, deve-se abolir todo sentimentalismo. Chegou o tempo de acção drástica e positiva.”
Para ter “sonhos” mais felizes, temos de retornar aos dias antes de chegarem os europeus. Amávamos nossa terra e cuidávamos dela com carinho, mas tínhamos nosso próprio modo de fazê-lo. Não cercávamos, por exemplo, o gado ou os cangurus. Não tínhamos tratores nem arado. Nossos modos eram mais adaptados às nossas necessidades.

Rico Conhecimento da Natureza

Percorríamos nosso território, recolhendo o que crescera sozinho e, no caso de algumas tribos, espalhando-se ao fazê-lo. Nossa mente estava sempre projetada em nossa próxima visita à área. Era de nosso próprio interesse preservar o que pudesse servir-nos na próxima visita. Sangrávamos as árvores que dão água, mas cuidadosamente as tapávamos depois; cavávamos poços d’água, e, daí, os cobríamos de areia para impedir a evaporação; matávamos para comer, mas jamais um animal com seus filhotes, pescávamos a arraia, mas em tempos de cruzamento passávamo-la por alto.
Assim, por tais métodos peculiares ao nosso modo de vida; cuidávamos de nossa terra. Na verdade, não tínhamos grandes colheitas, como se faz hoje, mas aquilo que buscávamos era altamente nutritivo e de suprimento constante e fresco.
O êxito de nossos métodos dependia de considerável conhecimento e perícia. A sobrevivência repousava em acumularmos em nossos “sonhos” rico conhecimento sobre a natureza. Veja aqui o que este livro (The Australian Aborigine, de A. P. Elkin) tem a dizer sobre isto: “A natureza é, para o aborígene, um sistema em que as espécies e fenômenos naturais se acham relacionados ou associados no espaço e no tempo. O aparecimento de um objeto, por exemplo  . . . uma ave, ou uma flor ou um inseto, veio a tornar-se, pela observação através dos séculos, o sinal de que a chuva virá, de que os peixes estão correndo, de que determinado animal ou réptil logo existirá em abundância, de que os inhames ou nozes da terra estão prontos para serem retirados, ou de que certos frutos estão maduros. . . . As flores amarelas da acácia são sinal de que as pêgas estarão voando, em suas rotas anuais, sobre as gigantes umbelulárias, de pântano em pântano, para comer os tubérculos dos lírios golfões. De modo que os homens constroem plataformas nos ramos de árvores escolhidas e, esperando, imitam o grasnido das pêgas, que então circulam a árvore e pousam. Mas, ao pousarem são abatidas ao solo com lanças que acertam em cheio, onde são rapidamente abatidas por homens na base da árvore.”
Tristemente, muitas destas perícias já desapareceram hoje. Por exemplo, a arte de seguir o rastro. Na verdade, a polícia ainda usa os aborígenes para seguir a pista de pessoas perdidas no mato, mas bons rastreadores estão desaparecendo depressa. Mas, na época dos sonhos, nossas próprias vidas dependiam disso. Os meninos aprendiam desde a infância a examinar minuciosamente o solo, e a ler a estória por ele contada, fazendo-o tão facilmente como meu filho hoje lê seus livros escolares. Ao chegar à idade adulta, poderíamos contar-lhe a estória de qualquer pedaço de terra, até mesmo de rocha dura — que homem, animal ou réptil havia passado por aquele caminho, e quando. Podíamos seguir tais pistas por dias a fio. As pistas deixadas por uma pessoa, quer fosse antes conhecida nossa quer não, nos contava muita coisa sobre ela; se era alta ou baixa, gorda ou magra, homem ou mulher, doente ou sadia, branca ou aborígene. Ao seguirmos as pistas, podíamos relatar o que ela havia feito no caminho.
Seguir uma pista exigia considerável paciência e perseverança. Podíamos seguir uma pista dum animal o dia todo, e, ao cair da noite, pararmos para dormir e voltar a segui-la no dia seguinte, até que chegássemos à nossa caça. Se, por descuido nosso, o animal viesse a saber de nossa presença e escapasse, então começávamos de novo até que, por fim, ficasse a uma distância de ser lanceado. Acha que poderia fazer isso? Quantas vezes lemos nos jornais sobre homens que teriam morrido no mato sem água se não fossem as nossas perícias.

Ir “Para o Mato”

Eu disse “sem água”, mas isso  apenas para os novos aussies. Nós, aborígenes, sabemos que ali existe água e sabemos como localizá-la. Essa é outra de nossas perícias do “tempo dos, sonhos”. Gostaria de “sair andando por aí” comigo e deixar-me demonstrar isso? Vê aquele matiz verde entre a grama mais marrom? Posso coletar água ali com a ajuda de minha vara de escavar. Se eu furar esta árvore, a água gotejará. Sob aquela lama seca há rãs que estocam a água. As raízes desses eucaliptos, quando comprimidas, dão água. Se eu cavar o suficiente naquele riacho seco, atingirei a água. Assim, como vê; há água por toda a nossa volta nesta região árida, se souber como achá-la.
Efetivamente, há tanta comida como bebida, mas precisa saber onde achá-las. Certo antropólogo moderno alistou os alimentos para os aborígenes numa pequena área como sendo os seguintes: 18 mamíferos e marsupiais, 19 aves, 11 répteis, 6 raízes aquosas, 17 sementes, 3 vegetais, 10 frutas, além de muitas plantas aquosas, fungos e ovos. Provável é que nossa escolha de alimentos e de métodos de cozinhar não lhe atraiam. Os gostos diferem, como dizem. Depois de um dia longo e cansativo, andando a duras penas e caçando, que alegria é sentar-se para comer uma refeição de carne tenra de canguru, lagartos gordos assados vagarosamente em areia ou num fogão de barro, junto com amoras recém-colhidas, folhas verdes e sementes variadas. Delicioso! Mais importante, acha-se repleta de nutrição tão essencial para nossas vidas ativas.
Ao “sairmos andando por aí”, não temos necessidade de casas. No clima favorável da Austrália, não são essenciais. São, de fato, uma desvantagem, pois nos prendem a um lugar em que a água e o alimento logo escasseariam. Nem levamos tendas. Nossas vidas de caçadores exigem que viajemos com pouca bagagem. Assim, além das necessidades — bolsas de água, vara de acender fogo e instrumentos, que as mulheres levam — nós, os homens, levamos apenas lanças e bumerangues.
Numa jornada difícil, a tribo age conforme um determinado padrão. Nós, homens, vamos na frente, bastante espalhados, nossos olhos examinando o solo em busca de rastros recentes. Bem atrás vêm as mulheres, crianças e todos observam o silêncio total. Ora, até as crianças que engatinham não pisarão num galho seco ou numa folha, nem deixarão escapar um suspiro. Lembre-se, um único ruído é suficiente para que tenhamos que ir dormir sem jantar. Conversamos por usar uma linguagem bem desenvolvida de sinais. Com efeito, as palavras básicas têm sinais universais entre todas as tribos. Poderia falar com pessoas cujo idioma não conhece?
A jornada nem sempre é feita de dia. Para conservar a umidade do corpo e perscrutar o canguru noturno, talvez viajemos de noite. Quando chega a hora de acamparmos, então uma “casa” de ramos de árvores, para proteger-nos do vento frio da noite e do sol quente do dia, é logo erguida. Acende-se uma fogueira, e estabelece-se um lar.
Isso me traz ao assunto de acender fogo. Na jornada, nossas varas de fazer fogo são cuidadosamente guardadas da umidade. Veja esta vara parecida a um lápis pontiagudo e esta tábua cheia de buracos chamuscados. Agora, observe. Coloco a ponta do “lápis” em um dos buracos e a giro rápido entre as palmas das mãos, comprimindo-a com firmeza, e veja só como logo a isca começa a arder. Deixe que as centelhas caiam sobre esta isca seca e sopre-a levemente, e, veja só, já acendi o fogo. Quase tão rápido quanto poderia riscar um fósforo! Jantará conosco? Temos pato, larvas gordas, ovos de emu, raízes comestíveis e por fim teremos as amoras que as crianças colhem.

O Bumerangue

Fica imaginando como é que caçamos tais patos? Explicarei. Mas, para fazê-lo, precisarei primeiro descrever nossas armas e métodos de caça. Deixe-me começar pelo bumerangue. Já considerou quão preciso é tal instrumento? Nenhum armeiro já modelou um instrumento perfurador com mais perícia do que modelamos o bumerangue. O comprimento relativo das lâminas, o ângulo de inclinação, a torção helicoidal, a superfície superior convexa qualquer falha poderá arruinar o produto final. A Australian Encyclopedia diz: “Os matemáticos mostraram que ligeira alteração na forma do bumerangue que vai e volta — na proporção do tamanho, da torção e do arredondado — tudo causará mudanças correspondentes em seu vôo que podem ser demonstradas por equações.”
Provavelmente, fica imaginando, ao ver que não temos tábuas de desenho nem instrumentos de precisão, como é que fazemos uma arma tão exata. Seu desenho se acha em nossas cabeças, por assim dizer, aprendido desde a infância. Os únicos instrumentos que usamos em modelá-lo são uma talhadeira, feita do dente de um animal, uma tula ou entalhadeira lascada do quartzo, tendo um fio de corte convexo, e pedaços de pederneira e rocha para amaciar. Todavia, quão cuidadosamente equilibrado e lindamente polido é o instrumento acabado! Poderia fazer um bumerangue? ou lançar um?
Sabia que há dois tipos de bumerangues? Ou que a espécie que vai e volta não é a usada para abater animais? Para isso, usamos apenas o segundo tipo, a vara de atirar. É igualmente feito com cuidado e é de forma similar, mas as lâminas são colocadas em planos que o tornam silencioso. Se fosse barulhento, o “canguru” que pasta ouviria sua aproximação. Gira tão rápido que é letal até a uns cento e oitenta metros. O tipo que vai e volta nós só usamos para o esporte competitivo e para apenas um tipo de caça — para pegar o astuto pato que temos para o jantar.
Estas aves sabidas colocam guardas enquanto se alimentam, de modo que é necessário um estratagema. Uma equipe de caçadores se espalha e cautelosamente se arrasta até à beira da água, onde um deles lança um bumerangue que vai e volta sobre a água. O som de suas lâminas giratórias se assemelha ao bater de asas do gavião-caçador. Soa-se o alarma, os patos alçam vôo, tornando-se alvos fáceis para nossas varas de lançar. Foi assim que capturamos o pato para o jantar de hoje a noite.
Nossa habilidade de desenhar e fazer o bumerangue tem captado o interesse de outras nações, mas esta é apenas uma de nossa perícias. Em nossos tempos de sonhos acumulamos vasto conhecimento da natureza. Aprendemos hábitos animais, a reconhecer e imitar sua voz, a antecipar a direção do vento, a fazer e a lançar delicados arpões para peixes, a converter peles ou madeira em sacos estanques de transporte de água, a lascar e serrear lanças de quartzo, a construir armadilhas para peixes, a construir balsas ou escavar uma canoa dum tronco de árvore. Podemos disfarçar os odores corporais com lama, camuflarmos com ramos de árvores, e, se a caça olhar para o nosso lado, podemos ficar imóveis num instante.

Não Somos Produto da Evolução

Fica imaginando por que eu continuo a lhe trazer à atenção os nossos talentos? Por favor, não me compreenda mal; não mo estou jactando. É porque existe uma teoria corrente, ligada à evolução atéia, de que nós, aborígenes australianos, somos uma espécie de “elo que falta” que ficou. Já viu aquelas gravuras de grande imaginação, de criaturas cavernícolas, meio-homem, meio-animal, com habilidades pouco diferentes dos instintos animais. Tais criaturas jamais existiram a não ser nas páginas dos livros pseudocientíficos. Mas, devido a que nós, aborígenes, não construímos casas, abrigamo-nos em cavernas, não usamos máquinas, tais homens tentam provar que somos intimamente aparentados de tais criaturas. Se ficamos aborrecidos? Naturalmente que ficamos!
O ponto que friso é o seguinte. A diferença entre os povos aparentemente mais atrasados e os mais adiantados é uma questão de oportunidade. As gráficas habilitaram outras nações a acumular vasto conhecimento em bibliotecas, mas nós apenas em nossos “sonhos”. Aqueles que argumentam que, por causa de sua tecnologia avançada, tais nações são mais evoluídas, apóiam-se numa falácia. Não podemos igualar seu conhecimento acumulado, mas podem eles igualar o nosso? O que ilustra o meu ponto: as habilidades dos vários povos foram canalizadas em campos diferentes, cada um segundo suas necessidades.
Houve um artigo que foi publicado há alguns anos atrás. Falava de uma menininha Africana abandonada por uma tribo canibal, salva por estadunidenses e então educada nos EUA. Na faculdade, igualou ou ultrapassou suas colegas. Não é o lugar de nascimento que vale, mas a oportunidade.
Diz-se que um povo pode ser medido pela complexidade de sua língua. Assim, examinemos nossas línguas. Embora sejam agora quinhentas, provêm de uma única fonte. Já, relatei como ainda conversamos em linguagem de sinais, mas nossa língua falada é bastante complexa. A gramática, a ordem das palavras e o vocabulário variam todos. Enquanto o inglês tem seis casos do substantivo, algumas de nossas línguas têm nove. Outras têm três gêneros, em comparação com os dois do francês. O inglês conjuga o verbo em seis tempos, nós o fazemos em onze.

Nosso Sistema Social

Não exigem também respeito a cultura e a civilização que erguemos? Embora cada território tribal tivesse estabelecidos limites, todavia, isso não interferiu nas relações entre as tribos. Em tempos de seca, havia necessidade de compartilhar os recursos de água e de alimento. As relações eram mantidas por embaixadores que levavam uma espécie de posto totêmico tribal, concedendo-lhes a categoria de embaixadores. O portador do poste obtinha livre acesso a outros territórios, onde fazia arranjos para a troca de noivas, assegurava a entrada de alimento ou de água, e assim por diante. Assim se garantiam relações pacíficas.
O sistema social em cada tribo era similarmente bem arranjado. A autoridade às vezes era patriarcal, às vezes cabia de direito a um conselho de anciãos. Diversas tribos andavam nuas, mas o código moral era elevado. Qualquer homem tinha autoridade de atravessar com a lança tanto a esposa adúltera como seu amante. A educação das crianças começava bem cedo, das meninas, a procurar, apanhar e cozinhar insetos e lagartos; dos meninos a procurar e caçar animais, a fazer e usar instrumentos, e a decorar a lei tribal e entre as tribos.
Não está prestando atenção! Será que aquele ruído o distraiu? É Wanju, que pratica tocar sua didgeridoo (flauta de bambu) para a corroboree (festa de canto e dança) de hoje a noite, que está prestes a começar. Venha comigo e observemos.
São nestas festas que muitos de nossos “sonhos” são escritos na mente tribal, pois aqui a lei, os costumes e métodos de caça são treinados. Por exemplo, a dança que começa agora é uma lição de como caçar. Quão sagazmente aqueles homens imitam o canguru. Aqueles outros são os caçadores, observando-os. Entra na dança a mímica das vozes das aves e dos animais. Veja quão vividamente as crianças observam e aprendem. Agora, relatam história, falando da estória de quando a tribo foi salva de grande dilúvio que destruiu todos os demais da humanidade. Eventos recentes são também incorporados na dança. Veja, representam agora as tomadas de um filme, como certa vez viram ser feito. Cada dança representa algum drama, tragédia ou comédia; mas, sempre, com raízes na história tribal.

Como Viemos Parar Aqui

Quando alguém me presenteou uma Bíblia, foi uma surpresa verificar que ela, também, fala do grande dilúvio que acabou de ver na dança. Deixou-me pensando em como nós, aborígenes, viemos desde a longínqua Sinear até a Austrália. Pelo que já li, ninguém parece saber ao certo. As suposições são tão numerosas quanto os seus proponentes. Não obstante, certos fatos se destacam e são de ajuda. Tais são que somos de descendência ariana, e não negróide; que viemos do norte.
É provável que, por virem de ilha em ilha, meus antepassados desembarcaram nas praias da Austrália, e então se espalharam pelo continente, adaptando-se a cada local em que se estabeleceram e, gradualmente, dividindo-se em tribos, estabeleceram costumes locais, incluíram variedades na língua básica, e desenvolveram fronteiras e territórios mútuos. O conhecimento e as perícias, trazidas com eles, adaptaram ao novo ambiente, adquirindo outras com o tempo e a necessidade. Tornaram-se especialistas de sobreviver numa terra árida. Por ficarem então cortados da corrente de conhecimento geral que fluía em outras terras, as circunstâncias os modelaram segundo o padrão que os primeiros colonizadores europeus encontraram quando chegaram em 1770 E. C.
Duas civilizações, totalmente dessemelhantes, então se chocaram. Devido a que os recém-chegados não se conscientizaram de nossos limites territoriais e de nossos métodos de cuidar da terra, concluíram que a terra não tinha dono e lançaram-se a explorar sua descoberta. De início, fomos tolerantes, mas, inevitavelmente, seguiu-se a guerra. O mosquete defrontou-se com a lança. Pouco a pouco, nossa terra caiu nas mãos dos recém-chegados e nós, aborígenes, vimo-nos lançados para as reservas. Vimos nossas florestas caírem a golpes de machado, do fogo e do trator; testemunhamos as espécies de vida selvagem serem extintas, e outras a chegarem perto da extinção. A vara de cavar e o trator entraram em conflito e o trator ganhou.
Ganhou mesmo? Hectares de terra são agora montanhas de pó; o solo arável é levado para o mar; os rios são conspurcados. Os inseticidas minam a ecologia dos insetos, das aves e dos animais e agora ameaçam até o próprio homem. Assim como nós, aborígenes, vivemos nas reservas, assim também muitas espécies de aves e animais raros só existem em pequenos bolsões que declinam rápido em tamanho e número.
Apenas no vasto interior desértico da Austrália existem bolsões de aborígenes que vivem ainda nos dias do seu “tempo de sonhos”. Um destes, a tribo de Pintubi, foi apenas recentemente (1957 E. C.) contactada por um jornalista de Melbourne, no Deserto de Gibson, a uns 960 quilômetros a oeste de Alice Springs. Seu relatório sobre eles incluía o seguinte: jamais tinham visto antes um homem branco, nem dinheiro, peixe, nem farinha de trigo; caçavam com cães selvagens domesticados, comiam roedores e lagartos, andavam nus, jamais se banharam e falavam apenas em suaves sussurros.

in Despertai de 22/8/1972 pp. 21-27

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OBRIGADO RUI COSTA!

AMOR MEU, DOR MINHA

DOR MINHA QUE BATES NO CORAÇÃO,
OLHOS TEUS QUE CRUZAM COM A PAIXÃO;

PARA ONDE FORES CONTIGO IREI,
ONDE ESTIVERES AÍ FICAREI;

NA ROTA DO AMOR BUSCAMOS SINTONIA,
SENDO O MAIS IMPORTANTE A COMPANHIA;

FELIZ AQUELE QUE TE AMA,
E QUE PODE ALIMENTAR A CHAMA;

FICAREI. FELIZ. SINTO O TEU ABRAÇO FORTE,
SINTO QUE O AMOR NÃO ALIMENTA A MORTE;

POR TUDO ISTO UM ADEUS NÃO PERMITO,
NO NOSSO CORAÇÃO O AMOR NÃO É MALDITO.